O médico veterinário na consolidação da governança de “Uma Única Saúde”
A interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental nunca foi tão evidente quanto no cenário epidemiológico contemporâneo. O surgimento de patologias emergentes e reemergentes, em sua maioria de origem zoonótica, associado às mudanças climáticas e à intensificação das cadeias de produção animal, exige uma mudança de paradigma na abordagem da saúde coletiva.
A medicina veterinária é sem dúvida voltada para prevenção de doenças, adotar boas práticas de manejo, implantar programas de biosseguridade, técnicas de inspeção de alimentos, são algumas das ações que tornam médico veterinário um profissional indispensável no desenvolvimento de uma sociedade moderna.
Nesse contexto, o conceito de Uma Única Saúde (OneHealth) deixa de ser apenas uma abordagem teórica e passa a ser uma ferramenta de governança intersetorialindispensável. O médico veterinário, por sua formação holística e competências técnicas específicas, ocupa uma posição estratégica e central na operacionalização desse modelo, atuando diretamente na interface onde esses três pilares se encontram.
Tradicionalmente associado à clínica médica e cirúrgica de animais de companhia e de produção, o escopo de atuação do médico veterinário é, na realidade, um dos pilares da saúde pública estruturada. A transição desse profissional para o núcleo das decisões em saúde coletiva viabiliza uma compreensão mais acurada dos determinantes ecológicos e biológicos que afetam as populações, transformando a vigilância reativa em monitoramento preventivo e preditivo.
Competências Técnicas e Áreas de Atuação ooEstratégica
A inserção técnico-científica do médico veterinário no ecossistema de Uma Única Saúde manifesta-se em diversas frentes essenciais para a sustentabilidade sanitária e o bem-estar social:
• Vigilância Epidemiológica e Sanitária de Zoonoses:O monitoramento de patógenos em reservatórios animais e vetores permite a antecipação de surtos em populações humanas. A atuação em programas de controle de raiva, leishmanioses, febre amarela e arboviroses demonstra como o diagnóstico precoce na fauna sinantrópica e silvestre funciona como uma barreira sanitária protetiva para a sociedade.
• Segurança dos Alimentos (Food Safety): Garantir que os produtos de origem animal estejam livres de perigos de natureza química, física e biológica, é uma atribuição exclusiva e vital. Através de sistemas de inspeção permanente e da implementação de ferramentas como a Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), o médico veterinário assegura que os alimentos que chegam à mesa da população estejam isentos de contaminantes e patógenos como Salmonella spp. e Campylobacterspp., prevenindo surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs).
• Mitigação da Resistência Antimicrobiana (RAM):Um dos maiores desafios globais da saúde e da terapêutica moderna. O uso racional e baseado em evidências de antimicrobianos na produção pecuária e na clínica médica animal é gerido pelo médico veterinário, combatendo a seleção de cepas bacterianas multirresistentes que colocam em risco a eficácia de tratamentos na medicina humana e também na medicina veterinária.
• Saúde Ambiental e Conservação de Ecossistemas: A degradação ambiental, o desmatamento e a urbanização desordenada aproximam a fauna silvestre do convívio humano. O médico veterinário atua no monitoramento da saúde da fauna exótica e nativa, identificando desequilíbrios ecológicos que servem como bioindicadores de contaminação ambiental (como por metais pesados ou defensivos agrícolas) e potenciais transbordamentos (spillover) de novos vírus.
Ações Propositivas para a Sociedade e Intersetorialidade
Para que a transição conceitual de Uma Única Saúde se converta em benefícios tangíveis para a população, os profissionais e futuros graduandos devem liderar e integrar ações que estreitem os laços entre a ciência veterinária e a comunidade:
1. Formação de Comitês Interprofissionais de Saúde:É imperativa a criação e a participação ativa de médicos veterinários em núcleos de saúde municipais e hospitalares, atuando conjuntamente com médicos, enfermeiros, biólogos e farmacêuticos. A discussão de casos de zoonoses sob uma perspectiva multidisciplinar otimiza diagnósticos e acelera respostas de bloqueio epidemiológico.
2. Desenvolvimento de Políticas Públicas de Manejo Populacional Ético: Propor e coordenar programas municipais de controle populacional de cães e gatos por meio de esterilização cirúrgica, associados a campanhas permanentes de vacinação e educação sobre guarda responsável e principalmente restaurar a utilidade dos centros de zoonoses, como importantes equipamentos para execução destas políticas. Essas medidas reduzem diretamente as taxas de agressões por animais, acidentes de trânsito e a transmissão de doenças parasitárias urbanas.
3. Fomento à Pecuária Sustentável e ao Bem-Estar Animal: Orientar o setor produtivo agropecuário para a adoção das boas práticas de manejo, que respeitem a vida animal e minimizem o estresse biológico.Sistemas de produção integrados e com altos padrões de bem-estar reduzem a necessidade de intervenções medicamentosas profiláticas, gerando menor impacto ambiental e entregando um produto final de maior valor biológico e seguro à sociedade.
4. Educação em Saúde e Comunicação Científica:Traduzir o conhecimento técnico para uma linguagem acessível à população. O médico veterinário deve ocupar espaços em escolas, mídias locais e associações de bairro para esclarecer riscos de transmissão de enfermidades, manejo correto de resíduos, cuidados com a conservação e manipulação dos alimentos e a importância da preservação da biodiversidade local.
A consolidação de Uma Única Saúde depende fundamentalmente da quebra de barreiras corporativas e do entendimento de que a saúde é um bem indivisível. Aos acadêmicos e profissionais que compartilham o ambiente universitário e os serviços de saúde, cabe o reconhecimento de que o médico veterinário não limita seu olhar ao paciente animal; ele estende sua atuação à proteção da coletividade.
Investir no fortalecimento da medicina veterinária preventiva, inserindo-a ativamente nos planos de contingência sanitária e na gestão ambiental, é uma estratégia inteligente, econômica e humanitária. O futuro da saúde global demanda uma atuação integrada, onde a ciência veterinária se consolida como um elo indispensável para a garantia de uma sociedade equilibrada, justa e saudável.
Para que o conceito de Uma Única Saúde se consolide plenamente como uma política de Estado, a atuação do médico veterinário precisa extrapolar a execução técnica no campo e nos laboratórios, inserindo-se de forma decisiva nas instâncias de formulação, deliberação e governança das políticas públicas nacionais. O fortalecimento da saúde coletiva no Brasil passa, obrigatoriamente, pela representatividade e ocupação de espaços estratégicos por esses profissionais nas esferas do poder público, onde as diretrizes sanitárias e orçamentárias são definidas.
Professor Doutor Ricardo Moreira Calil – Médico Veterinário Sanitarista – CRMVSP 0846 – Professor do curso de Graduação em Medicina Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas


